quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Exorcizando o Cigarro


Ontem, quando a carteira de cigarro acabou, decidi não comprar outra e, simplesmente, tentar, mais uma vez, parar de fumar.

É muito difícil você conseguir parar de fumar se você mora com fumantes, ainda mais com fumantes como a minha mãe, que além de não ficar sem cigarro jamais, me faz sair pra comprar o cigarro dela, mesmo que eu não queira fumar!!!!! Contudo, há mais de dois meses minha mãe não está em casa, porque eu não aproveitei logo para parar de fumar??? Enfim, a verdade é que isso é um vício e deixar um vício requer força de vontade e abdicação de momentos de prazes.

Bom, estou há 19h e 36 minutos sem fumar, sendo que 8h dessas horas eu passei dormindo.

Percebo alguns estágios pelos quais passei nessas 19h e que aqui relatarei:

1ª hora: sensação de alegria e disposição, finalmente estou fazendo algo por mim, por minha saúde.

2ª hora: trabalhar no computador sem cigarro é complicado, começo a roer unha e colocar a caneta na boca, talvez seja verdade aquilo que minha analista disse: tenho problemas na fase oral!!! (((mas cá pra nós, que mulher não tem?!? tá difícil achar um homem que saiba fazer direito!!! kkkk)))

3ª hora: decido ir deitar na cama, pois uma vez que não tenho costume de fumar no quarto, nem deitada na cama, ali a lembrança e a vontade de fumar são bem restritas.

4ª a 11ª horas: dormindo na paz do senhor, sem pesadelos nem incômodos.

12ª hora: acordo com a boca amarga, talvez falta de nicotina, talvez o gosto ruim do anti-inflamatório que estou tomando contra uma mastite muito incômoda... de todo jeito a vontade de fumar chega a provocar alucinações.

13ª depois de comer mamão como mel e granola sinto dor no estômago bem forte, será que minha gastrite sente falta do cigarro matutino??? me pergunto se minha força de vontedade não vai se abalar se continuar sentindo dores e vou acabar cedendo ao argumento insano, que já começa a buzinar na minha mente: com o cigarro eu não fico doente.

14ª hora: realmente algo está acontecendo com minha gastrite, começam a surgir na boca pequenas aftas e a língua parace estar um pouco inchada: meldels!?! tudo isso é meu corpo sentindo falta do cigarro???

15ª hora: o mal humor se instalou de forma completa e sem limites: não consigo nem olhar e nem falar com ninguém, nem com as cachorras, aliás princípalmnete com elas que acabaram de roer a minha 1000000001ª sandália, desgraçadas!!!!!!!!!!!!!! Caso o telefone toque já decidi que não vou atender, por isso, se está lendo isso, até eu melhorar não me ligue!!!!

16ª hora: Começo a olhar o pote de moedas no corredor da sala, dá pra comprar 1 cigarro a retalho... mas se eu ceder vou ter que começar a contagem toda de novo... ah esqueci de dizer, estou marcando cada hora com um post it na tela do meu pc, assim fico bem atenta sobre quanto tempo vou desperdiçar caso ceda à tentação de fumar.

17ª hora: Haja força de vontade, olhei para o lixo do lado do computador para ver se não tinha nem uma bagazinha de cigarro não terminado: NADA!!!!, Ontem eu toda alegrinha joguei tudo fora, fora de casa, para não cair nessa tentação: Ô ódio de mim!!!! Mas não vou fumar...


18ª hora: Começo a me animar vendo que estou chegando perto das 24h, e ao mesmo tempo que que me alegro, fico temerosa, pois amanhã terei que sair de casa, encontrar fumantes pela faculdade e ter que resistir a pedir: me dá um cigarro. Sei que se eu não resistir e acabar fumando só um, umzinho, eu voltarei a fumar normal e isso não pode acontecer.!!!!!


19ª hora: decido escrever no blog pra tentar exorcizar essa vontade doida de acender um cigarro, maldita hora que comecei a fumar... Quero inventar outro prazer para colocar no lugar.... Ficar sem prazer é que não dá!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

)v(i



Um dia um vampiro bateu à minha porta, e sem pedir licença invadiu as minhas veias e derramou seu sangue febril na minha circulação, desde então me sinto mais viva do que jamais me senti, como se tudo o que respira e transpira em mim tivesse começado a morar... de seus lábios derramaram-se as palavras doces capazes de despertar a besta que me anima, e desde então minha alma se contorce em júbilo e deleite!

sábado, 19 de julho de 2008

Taxionomista


Acordei, nessa manhã, sentindo um gosto estranho na boca e, como sempre faço, fechei os olhos e comecei a analisar aquele sabor. Tenho a singular mania de dar nome aos bois, mesmo que os bois sejam impalpáveis sentimentos, voláteis odores, sensações táteis ou apenas simples idéias, no final das contas, tudo precisa ser definido e categorizado dentro dos meus paradigmas avaliativos, com a máxima precisão. Não me levantei tão logo abri os olhos, fiquei paladeando o estranho gosto, buscando aquela inefável definição, até que, passados alguns bons minutos, falei pra mim mesma, num sorriso: “reminiscências”. Sim, certamente, reminiscência era a interpretação do sabor que sentia entre a língua e o céu da boca.

Depois desse vitorioso achado, senti-me invadida, momentaneamente, por um sentimento de satisfação, que fugazmente brilhou em meus olhos. Chegara, enfim, à descrição efetiva, solicitada por minha obsessiva idiossincrasia catalogadora de sentidos e intenções.

Como é de costume, a simples identificação do fato não é suficiente para aplacar-me a ânsia de taxionomista. Olhei para mim mesma no espelho oval da penteadeira e as reminiscências de toda a minha vida, até agora vivida, passaram diante dos meus olhos, vi que aquilo que considerava inato, minha protetora indiferença, meu distanciamento do mundo, não passa de construções: um processo contínuo e incessante de acúmulo de experiências, frustrações de expectativas, rejeição de alguns fundamentos de mim e aquisição de trejeitos e personas enaltecidas pessoal ou culturalmente.

Então, reconheci-me naquela imagem que se refletia pálida na placa de bronze e vi o rosto de mármore ser desvelado, duro e frio, confusamente eu. E disse: “sim sou EU, sou também”.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Insano Limiar


Não há qualquer dúvida: existem momentos na vida em que nossos limites são testados ao extremo, é como se Deus estivesse nos experimentando para nos mostrar de que têmpera somos feitos. Eu, cada vez mais, sei qual é minha triste natureza. Conheço o fascínio que a angústia exerce sobre mim, e mesmo com todo o mal que ela me faz, quando sinto o seu gosto subindo pela minha garganta, permaneço sentindo ela vibrar e palpitar no meu íntimo. Acho que existe algo nessa angústia que me faz crer que sou menos banal e menos moldada às misérias desse mundo. Mas a verdade é que eu não saberia viver sem a angústia, pois são tão poderosas as suas forças em minha alma, que o seu tumulto me mantem seguindo em frente, escrevendo. Minha angústia me impele a isso.
"O dom que sossega a minha tristeza, só ela constrói, sem ela tudo me dói, deixa pra lá..."
(Vanessa da Mata, Eu não tenho)

domingo, 6 de julho de 2008

Há alas de pessoas boas, boas, onde estão?

“Tudo o olho fala
Olho pedaço exposto do coração
Olhar linguajar, língua já
A palavra é quem mascara
Mente, mente, mente
Mente é imaginação
Imagem de pau é cara, cara
Cara mentira, cara criação”
(O perdão, Vânia Abreu)





Ando extremamente amarga esses dias. Alguns amigos podem até dizer que o adjetivo não combina comigo. Mas me sinto ácida, corrosiva, numa TPM constante. Me irrito profundamente com tudo. E me pergunto: quanto de minha irritação tem legitimidade? O quanto disso tudo cabe exclusivamente a mim? Quanto ao outro posso atribuir alguma responsabilidade?

Sinto-me exasperada com as pessoas, conhecidas e desconhecidas, e tento afastá-las de mim, para que não lhes diga da minha insatisfação, para que eu não venha a explodir em seus ouvidos os pensamentos que me perturbam.

Suspiro, respiro e transpiro quando vejo os egos emergirem das máscaras de “pessoas boas”. Tenho ânsias de vômito ao ver pessoas dizerem que procuram o seu lugar no mundo, sem de fato nunca terem sequer tentado. Não suporto gente que arrota a sua intelectualidade e revira os olhos para opinião alheia. Detesto pessoas estilosas, bem como aquelas que só seguem o que “está se usando”. Não suporto pessoas lerdas, muito menos as que se fingem de lerdas. Odeio pessoas manipuladoras que se fazem de vítimas e de pobres coitadas.

E, embora tudo isso me esteja sendo insuportável, tenho que continuar a aceitar que no mundo existem todos os tipos de pessoas, e que o meu tipo pode ser, até mesmo, insuportável para alguém.

Afinal, ultimamente, muitas vezes, eu mesma não me suporto, e vejo em mim algumas das coisas de que falei antes.

Diário íntimo - Para Helena


"Aqui estou eu, como diante de um espelho. Minha imagem inteira se projeta - um esforço apenas, deteriorado por todas as espécies de sonhos. Sinto-me de pé à espera da transformação - sei, sei dolorosamente que me transformarei - e enquanto isto, ouço escorrer dentro de mim esse sangue escuro feito pelos detritos de tudo o que amei, de tudo o que concebi e que supus mais alto. Há um inverno permanente que me cerca - sinto que me falam ao ouvido, palavras que ninguém jamais escutou - e a solidão traça seus estreitos caminhos, quando o mar bate e o tempo fala de suas débeis conquistas. Não somos ISTO - o que existe, está além, muito além de nós. As vozes que escuto são sombras da verdade. A verdade é tudo ainda que não advinhamos."

Lúcio Cardoso (às vezes me sinto tão ele....)

domingo, 29 de junho de 2008

Sem sentido


As minha palavras se originam, em grande parte, dos ecos da minha tristeza e da minha solidão. Mãs não de uma certa tristeza advinda das coisas mais banais, mas daquela dor enraizada que emana da solidão humana, dessa nossa condição limitada, forjada na inconsciência e que nos impõe a incompreensão de nós mesmos. As deformações do espelho que nos reflete, a visão turva que nos impede a contemplação do tempo, em mim, habitam recônditos circulares cheios de portas e janelas que se abrem e se fecham intermitentemente. Não alimento tais sentimentos, mas eles se revolvem obscura e tumultuosamente dentro de mim, sem que eu saiba como escapar de sua existência. Talvez alguém conseguisse encontrar expressões mais eficientes para essa visão informe que, entre um sentimento vivo e uma impossibilidade total de compreensão, conduz meu pensamento a uma espécie de dilaceramento, de incoerência. Mas teimo em tentar penetrar como meus olhos opacos esse mundo que imagino erigir-se na sombra. E, por sempre fracassar, sinto, então, que sou um plano inacabado, um esboço abandonado, uma frase não pronunciada, um sonho que alguém esqueceu quando acordou.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

"Amor vem de amor" - Rosa para Sônia

Olha como são as coisas dessa vida cheia de descaminhos e veredas: hoje Guimarães Rosa completaria 100 anos, e quem me conhece sabe da minha paixão pela obra e pelo homem. Costumo dizer que se existe vida após a morte, gostaria de encontrar com três caras lá em cima (em baixo, no meio, ou no oco sem beiras): Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges e Deus, se possível nessa ordem, porque "se eu quiser falar com Deus", como dizia Gil, preciso de que Guimarães e Borges me ajudem a entender umas coisinhas antes... rssss

Mas como eu ia dizendo, hoje, justo hoje, no aniverário de João, Soninha me devolveu o volume das obras completas que lhe tinha emprestado. Acho que ela não se deu conta da coincidência, mas eu sim. Afinal, nós duas, durante quase 3 anos, estudamos juntas (eu sob orientação dela), as palavras de Guimarães Rosa, que nos encantavam, deliciavam e desafiavam.

Hoje, olhando para o livro à minha frente, ouso sentir o laço que nos une: Eu, Sônia e João... e porque não poderia expressar melhor o meu amor e admiração por esses dois, dedico a Soninha, minha mestre, minha amiga, eterna orientadora, essas palavras de João Guimarães Rosa:

"Por esse longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tentou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração..." (...) "Deixa o mundo dar seus giros" (..) "Mas, se você algum dia deixar de vir junto, como juro o seguinte: hei de ter tristeza mortal!" Pois "Confiança - o senhor sabe - não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa."
(João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas"

terça-feira, 1 de abril de 2008

Metáfora de mim


Enveredava os meu passos por caminhos tortuosos, tão tortuosos quanto a minha alma, e, nesse caminhar, me dignava apenas a olhar tudo à minha volta, a paisagem na janela engradeada, a alterar-se à medida que, lentamente, me conduziam os meus passos autômatos. Sintia-me pobre. Sentia-me vazia. A felicidade me parecia distante, apenas a lembrança de um suave toque sobre a minha pele. Afastei-me de mim como se repele um verme repugnante. Já não era eu. Apenas estava à deriva. Bradei aos céus, e as pedras, imóveis, suspiraram.É passado, contudo. As dores, súplicas, injúrias, cicatrizes e flores retorcidas já não me tocam mais. E é bom saber, e crer que passado não volta jamais.Encontrei a melhor metáfora de mim e sigo construindo imagens para a alma tortuaosa que não se cala, mas que sempre quer chegar, de novo e sempre. Chegou, cheguei. Não há nada que me prenda ao passado. E, contudo, não é futuro que me consola, é o presente que me foi doado, pelo destino que as estrelas cadentes rabiscaram no céu. E diante de tal tesouro, meu bem precioso, tão incompreensível e grandioso, em prece, agradeço, extasiada. Não solto nem um suspiro, uma respiração ofegante. Pois tenho a felicidade e não pretendo perdê-la, logo agora, que tão tardiamente nasceu.

sábado, 24 de novembro de 2007

As mais belas cicatrizes


Eu gostaria de viver como se cada momento estivesse nascendo de novo, o coração mais livre do mundo, como o riso de uma criança e o planar lento dos pássaros. Sentir que tudo fosse tão puro como se visto pela primeira vez. Quem dera voltar ao olhar ingênuo que já não tenho mais. Ah, mas não devo, não posso e não tenho o direito de perder de vista a secreta bagagem que em mim se acumulou, e que, apesar de tudo sempre me habitou. Regressando a essas infindáveis memórias, vejo-as eclodir na superfície da minha pele como as mais belas cicatrizes, marcas indevassáveis do que sou, e que somente eu posso ostentar. A pureza já não há, resta em mim a vontade de existir, apesar de.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Perfeição indigna


Meu ego me toma por vezes, me arrebata para um oceano profundo e se espalha em vibrações cotinuamente sutis. É para o fundo - onde eu sou não -, que ele me leva e, ali, me consome. O ego é ladino, ele elogia para me atrair, e sempre que ele me pega pelas mãos, e me carrega em seus braços, sinto-me donzela prometida. É no centro do ego que o eu - perfeita - se projeta. E ali, por vezes, sou levada. São segundos seculares de entrega à perfeição. Tempo e espaço em que posso brincar de ser poetiza eleita, como o fazia Florbela. Mas, com a volúpia de um farfalhar de asas, aos poucos, sobre os ombros começa a pesar tanta perfeição. E surge uma reflexo de mim sobre meus olhos. O ego me abandou, e posso de novo me ver como sou: imperfeita, mas dignamente feliz.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Procura-se lucidez


É fundamental que entendamos a vida como um sonho, não um sonho inventado, mas um sonho vivo, vivido e vívido. Um sonho que não é a visão de um insensato - num completo desconhecimento das coisas, mas um milagre de harmonia, de equilíbrio e de compreensão. Afinal, que outra finalidade teria a vida senão a de emprestar às pobres coisas desamparadas que somos o prazer da compreensão. Devemos tentar compreender sempre e mais profundamente, até poder aceitar tudo sem revolta. Compreender com a alma, com o coração, com os dedos, com os lábios, com tudo o que é dotado de sentido em nós. É necessário ativarmos a nossa percepção das pequenas e inúmeras almas antagônicas que nos constituem. Então viveremos um sonho, acordados e lúcidos, pois a realidade é um mistério cujo alfabeto jamais soletramos com inteira coerência.

terça-feira, 23 de outubro de 2007


A verdade, pelo menos a verdade que se procura neste mundo, não existe. Mas devemos acreditar sempre que ela está em algum canto e que é melhor continuar sempre a buscá-la, pois, qualquer que seja, a verdade em si não tem nenhuma importância e sim o andarmos continuamente em sua busca.

sábado, 13 de outubro de 2007


Guimarães Rosa disse que “toda saudade é um espécie de velhice”. Devo admitir, ele tem toda razão. Ando com muitas saudades do tempo em que meu corpo respondia mais rapidamente aos estímulos, quando as dores não eram tantas e as formas eram reduzidas. A idade chega sempre, e com ela novas pessoas em nós vão se engendrando, somos essa nova pessoa, mas não deixamos de ser, na memória, aquela que um dia fomos. É lindo envelhecer, mas não há como negar, dói né? E com Rosa, eu digo: “Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando, afinam e desafinam.”

sábado, 22 de setembro de 2007

Beija as lágrimas de quem chora


Beija as lágrimas de alguém que chora... Em qual fonte de água mais pura hás de beber? Para redimir a sua dor, para transcender a ti mesmo, para descrer e crer em ti de novo? Espera pacientemente e todas as lágrimas de sangue que derramas dentro de ti mesmo, no decorrer do uma vida árida e sofredora, transformar-se-ão num lago plácido e espelhado a céu aberto, em meio a um jardim florido, onde voam colibris de tua alma apaziguada. Sim, beija as lágrimas de quem chora...

Revelações sutis


Quero dormir, tendo alguém que vele o meu sono.

Alguém que se desnude e me cubra com seu corpo.

E, quando for de madrugada, me acorde,

me tome pelas mãos e me mostre as coisas

belas que nasceram enquanto eu dormia.

Tão dentro de mim


No dia em que eu te senti dentro de mim, fez-se minha a tua dor e, desde então, fez-se noite em mim. A tua dor me aprisiona, se desprende de nós e me devora. Anseio o esquecimento das horas más que tens vivido. Quando ouço os teus soluços calados, a ansiedade me rói a alma. Nos suspiros cadentes da tua sinfonia, sustento o olhar que infindamente repousa em ti. Dói-me a tua dor. Suspenso no ar, paira o silêncio que arde, que ecoa retumbante a dizer-nos do medo. Vejo os teus olhos ainda, pressinto o gosto amargo na boca. Vagueia ainda em mim, a trava que tu sentes a sufocar-te o peito. E ainda que eu fuja para um mundo de sonhos, onde as tuas quimeras se desfazem, ao entardecer, saberei sentir ainda o sabor da tua lágrima. Queria inventar-te um amanhã povoado de estrelas, fazer-te sentir a liberdade de ser o que tu quiseres, retirar de ti esta ânsia que nada acalma. Quem me dera pudesse eu ter asas que a ti pudesse doar, fazer-te deixar de ser chão, sem receios para voar. Contudo, não me atrevo a inventar o sonho, me sinto ínfima, pequena. Conheço os teus pecados, pois eles também são meus. Pronuncio as tuas blasfêmias, elas também vêm de mim. Pois é mesmo assim, desde aquele dia, tu andas tão dentro de mim.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Apenas o caos


Sinto que o espelho novamente deseja fragmentar-se e romper-me. Já excedem os restos de mim e sobram angústias e ansiedades, que mesmo latentes, se fazem demasiadas. Não é fácil SER. Não é fácil ver-se através desse espelho que se estilhaça continuamente. É preciso serenar a minha angústia, mas não! Eu não me dou sossego, eu não me deixo em paz.
Quero dizer o indivisível e resolver o impensável, quero pensar o impossível e viver o indispensável. E embora o desejo haja, o impulso de vida, que não me alimenta e diariamente me devora, faz em mim, essa inquietude desavisada, essa mansidão rebelada, essa falta de tudo que em mim cala.
E então, no espelho que se quebra, vejo as roupas rasgadas, o cabelo embraçado, os olhos borrados, a boca partida. E para além dessa imagem não há mais nada, em tudo o que sou, sobeja, apenas, o caos.

terça-feira, 11 de setembro de 2007


Sinto que já disse tudo o que poderia dizer, sinto-me esgotada de palavras, tão vãs, tão ineficazes. O silêncio é o meu caminho. E esse destino que me cabe, é ter de Deus o sofrimento.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Fatal


Anda muito difícil escrever, por isso, venho me desculpar, se tenho apego às palavras alheias que por vezes são aqui pronunciadas, para dizer o que a incapacidade humana supunha poder criar, sem jamais consegui-lo. E, embora esteja mesmo muito difícil, escrevo para amansar meus fantasmas, expurgar os meus demônios, destilar o meu veneno e despir a minha pele. E, o que mais dolore, nesta hora, é o não poder escrever dignamente a minha dor. A maior turtura daquele que escreve é jamais poder alcançar a beleza suprema de uma lágrima que escorre na face dos piedosos. E, então, suplicante, rogo aos deuses que me torne piedosa, para quem sabe poder descobrir o mistério dessa lágrima, e, decisivamente, através das palavras, fazê-la escorrer sucessiva e infinitamente. É penoso escrever agora. Na verdade, sempre o é. Contudo, insisto, pois, ao escrever, é quando mais vivo. Na escrita tudo é permitido, o impossível não existe. Quando se escreve as palavras mais tristes de uma língua: "poderia ter sido", mente-se. Tudo pode SER. E sendo, será continuamente. E se, nessa-vida-aquém-e-além-das-palavras, muito pouco nos é permitido, naquele que escreve o metafórico, o metafísico e o sobrenatural se fazem amantes perpétuos. E se o que escrevo carece de dignidade, não culpem as palavras, puna a quem as ousa violentar. E ainda que me punam, contunuarei a ousar fazê-lo. Desistir seria simplesmente fatal, fatal, fatal...

Tudo retorna sem cessar. Se o universo tivesse algum objetivo, já o teria atingido; se tivesse alguma finalidade, já a teria realizado: Não existe um Deus, soberano absoluto, com desígnios insondáveis. Todos os dados são conhecidos; finitos são os elementos que constituem o universo,finito é o número de combinações entre eles; só o tempo é eterno. Tudo já existiu e tudo tornará a existir.


NIETZSCHE

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

“Nosso sonho se perdeu no fio da vida, e eu vou embora,
sem mais feridas, sem despedidas,
eu quero ver o mar”




Em tempos modernos, sonhar com príncipe encantado já anda fora de moda. Mas eu, descompassada que sou com o meu tempo, continuo sonhando com o amor cortês da idade média. Mas me pergunto, porque morreu o amor cortês? Um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e auto-disciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente entre o desejo erótico e a realização espiritual. Um amor capaz de gerar uma devoção contida, e, ao mesmo tempo, pulsante, criativa, como o provam as Cantigas de Amor do cancioneiro medieval. O homem contemporâneo perdeu a capacidade criativa do amor cortês. E eu com isso??? Eu: sou Dulcineia desvairada, a perguntar pelas ruas: “onde andará meu Dom Quixote?”. Sou Isolda, enfurecida, a amaldiçoar o mar, que insiste em levar e nunca mais devolver o Tristão que nunca me chegou.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Uma merda completa


“Haverá um dia, algum dia qualquer. Nesse dia tudo será bom, encontrarás as pessoas que queres ver, comerás a comida que mais gostas, e tudo o que acontece é o que querias que acontecesse. Se ligas o rádio, estará tocando tua música favorita, (...) Isso só acontece apenas uma vez na vida, por isso tens que estar preparado. É como um desvio, como quando estás dirigindo para um lugar e te distrais, e quando vês pegou o caminho errado e já não podes voltar atrás. Esse dia é assim: um desvio! E é muito importante, porque podes escolher por onde seguir seu caminho: se por esse caminho que não é bom ou não! Por isso temos que estar muito atentos. Porque existem muito poucas coisas boas na vida. E se tu as perde porque passam desapercebidas, ou tu estás pensando em outra coisa, seria uma merda! Uma merda completa!”


Trecho do filme "Princesas", de fernando León

Ode à maturidade

Se eu pudesse ser qualquer pessoa, eu seria eu mesma.
Se eu pudesse amar qualquer pessoa, amaria a mim mesma.


Sento-me sobre as minhas carnes e me admiro serena no espelho da mente. Sinto minhas veias pulsarem, transbordando o orgulho que me arde: pela minha idade, pelas minhas experiências. Por tudo que em mim carece e por tudo que em mim exacerba. Me miro e me vejo no espelho da mente, onde repousa lânguido o olhar, que se esconde e se revela piscante entre as luzes do luar. O estirar-se inquieto e constante dos meus lábios fulgura no rosto que se projeta sobre o mesmo espelho, íntegro e voraz, extasiado e demente. Meus ouvidos não me mentem as mentiras que queria me contar, gritam em meus tímpanos os diálogos descarnados entre mim. Rolam entre os meus cabelos rubros cachos de verbenas. O marfim que me cobre a pele reluz sob a luz incidiosa dos olhos que me miram, e são tão meus esses olhos. O som da minha voz, em veludo, arranhado, me alivia a língua que quer dizer o que se pode descobrir em mim. Então, me ponho a escrever, de alma desnudada, sobre a cama onde me amei. Sinto, nos milímetros da minha pele, o borbulhar explosivo da minha fotossíntese noturna. E nesse momento: o meu verde se enrubesce.

sábado, 25 de agosto de 2007

Little Girl Blue

"Pára, ouve, vê, repara, que para além de mim já não há mais nada..."

Blue, blue, blue... ouvindo o blues cantado por Janis, sinto me anestesiada. Tudo paralisado. As palavras me diminuem. Os sentimentos se perderam no meio do caminho, estáticos, nervosos. Busco o ar que me foge, tudo está em suspenso. O vento não vem me visitar. Busco ainda versos, que possam me acalmar o vazio, tão próximo e tão evidente. Um nó(s) na garganta ficou preso. Sento-me aqui, contando os pingos de chuva. O que, além disso, me resta a fazer? O que se deve fazer aqui além disso? Eu não sei o que se sente, só pressinto essa incompletude, desmoronam-se as paredes, as estradas se desfazem, tudo ao redor perde o seu contorno definido, ao olhar embaçado. Você pode não sentir o tempo, eu o sinto infinitamente. Tudo que a gente sempre sentiu tem que contar adiante ou seremos mesquinhos sucessivamente? E eu sei que ainda não começamos a ir adiante, por alguma razão que não consigo alcançar. Mas eu preciso seguir, e se estendo a mão e não a seguras, porque decides pelo "não", só me resta contar os pingos da chuva, que silenciosamente escorrem dentro de mim.